As crianças não são de cristal

Hoje em dia, tudo é susceptível de traumatizar as crianças. Não se grita com uma criança porque isso pode traumatizá-la, não se ralha porque isso diminui os seus índices de autoestima, não se dá uma palmada porque isso é extremamente violento. Tudo se conversa, tudo se negoceia, tudo se discute, porém com muita calma, com muita paz, com muito amor. Acho lindo, em teoria. Na prática, acho medonho e suspeito que estamos a virar o mundo de pernas para o ar.

Passo a explicar, com um caso prático (nada como um caso prático para permitir uma melhor compreensão): no outro dia, um vizinho negociava com o seu filho de dois anos a entrada no elevador. O bebé não queria entrar. O pai não levantava o tom de voz e tentava convencê-lo. Anda, Miguel, vem lá.. E o Miguel não ia. O meu marido, entretanto, segurava a porta do elevador, para que não se fechasse. E a cena continuava, sem desfecho à vista. Então, Miguel, vamos lá… E o Miguel nada. No elevador, o meu marido assistia ao desenrolar (que era mais um não-desenrolar) do episódio, com o paizinho sempre com o mesmo tom cordato e o filho cada vez mais embirrante, a fincar o pé, ditador e gozão, dono das rédeas, comandante daquela luta.

“As crianças precisam de regras, precisam de nãos”.

A certa altura, o meu marido pigarreou, temendo passar ali toda a tarde. O pai zen olhou-o, surpreendido, e exclamou: Não me diga que está à nossa espera?! Ah, pode ir! As negociações ainda agora começaram!

Mas o que é isto??? A que ponto chegámos para que um cotomiço de 2 anos mande no pai e, por arrasto, acabe até a atrasar um vizinho que, solicito, decidiu segurar numa porta? Como é que é possível? As negociações ainda agora começaram? A sério?

O facto de termos cada vez menos filhos, aliado aos estudos de psicólogos bem intencionados (mas um nadinha dados ao exagero), levou-nos a isto: uma sociedade em que são os filhos a mandar nos pais e não o contrário. Se a criancinha só come com o tablet diante do nariz… ponha-se-lhe o tablet diante do nariz. Se a criança quer ir para a escola com umas galochas em pleno verão… pois que seja. Tudo para não traumatizar os petizes, coitadinhos, que são de cristal e sabe-se lá se não degeneram em perigosos psicopatas se acaso forem contrariados.

Eu cá acho que está tudo maluco. Felizmente cá em casa as crianças sabem quem manda. Porque a democracia é um sistema muito interessante mas num mundo de adultos. Quando falamos da relação entre adultos e crianças é bom que se perceba quem manda, quem tem a autoridade, quem sabe, quem orienta. É essencial que haja uma hierarquia, em que os pais estão no topo da pirâmide e não o inverso. As crianças precisam de regras, precisam de não. E, sim, quanto a mim por vezes precisam de um berro e, em casos muitíssimo pontuais, podem precisar de um sacode-o-pó de um rabo. Não é bater para doer, bem entendido. É dar um chega-para-lá que os faça terminar uma birra infernal, por exemplo. Tenho 4 filhos e era o que mais me faltava se tivesse que negociar a simples entrada num elevador.

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