Drive-Ins: Uma história americana

Os cinemas drive-in são considerados uma invenção do norte-americano Richard Milton Hollingshead Jr., que na altura com trinta anos de idade testou no seu próprio quintal em New Jersey o conceito de colocar um projector Kodak no tejadilho do seu carro e visionar uma película numa tela que estava presa a uma árvore. Em poucas semanas, e com a ajuda da vizinhança, Hollingshead aproveitou para experimentar uma mão cheia de configurações possíveis para a colocação de vários veículos, sem que nenhum deles ficasse prejudicado ao nível do campo de visão. A solução final acabou por consistir numa série de rampas cuja inclinação variava conforme a proximidade com a tela; e foi exactamente esta conjugação estrutural que Richard patenteou, o que lhe iria permitir receber uma certa quantia por cada cinema drive-in que abrisse no futuro. Ou pelo menos era assim que ele pensava.

A patente foi submetida no dia 6 de Agosto de 1932 e aceite a 16 de Maio de 1933, tendo ficado com o número de série 1909537. Com essa vitória na secretaria, Hollingshead construiu o primeiro cinema drive-in na Crescent Boulevard, tendo a sessão de abertura ocorrido a 6 de Junho de 1933 e o local publicitado como um “Automobile Movie Theatre”, para não confundir potenciais interessados. O filme escolhido, “Wives Beware”, um lançamento do ano anterior. Surpresa ou não, a estreia foi um tremendo sucesso. Casa cheia – perdão… parque cheio -, a 25 cêntimos o bilhete por carro, mais 25 cêntimos por cada pessoa dentro dele. Preço bem superior ao que se pagava então para ir a uma sala de cinema tradicional, mas que revelou ter sido uma aposta ganha.

Depois de Hollingshead lançar a ideia, surgiram vários drive-ins, mas nem todos seguiram a sua patente.

O tempo passou e em 1949 haviam cerca de 155 drive-ins nos Estados Unidos da América. Muitos deles usaram o sistema de parqueamento de Hollingshead, o que lhe rendeu alguns tostões valentes, mas com o boom dos drive-ins nos anos cinquenta, muito por culpa dos anos pós-Segunda Guerra Mundial e da banalização do uso do carro no quotidiano de americanos de todas as camadas sociais, esse número aumentou para cerca de 3700, muitos deles tremendamente simples, usando uma simples parede branca como tela e um projector do mais barato que havia apenas para fazer dinheiro. Fossem estes, ou mesmo os que apareceram mais complexos, com muito mais condições e até inseridos dentro de parques de diversões, quase todos arranjaram maneira de dar a volta à patente de Hollingshead e arranjar os seus próprios esquemas de parqueamento das viaturas. E, do nada, um negócio de milhões, em crescendo, esvaziou-se monetariamente para o seu criador.

Nenhuma apresentação à história dos drive-ins, por mais sintética que fosse, estaria completa sem uma referência aos “ninhos de amor”. Sim, para gerações de norte-americanos, os cinemas drive-in são a recordação de lugares onde deram o primeiro beijo, o primeiro apalpão ou mesmo algo mais sério. Eram o sítio perfeito para namorar, locais onde muitos casamentos começaram – e muitos outros terminaram. Ironia ou não, foi exactamente a pensar neste público mais apaixonado, e numa tentativa de abrandar ou inverter uma queda de afluência aos drive-ins que começou a sentir-se nos anos setenta, que estes começaram a apostar em sessões eróticas/pornográficas. E foi esta a praga que, ao tornar-se uma fonte inesperada de lucros – as comissões pagas a estas distribuidoras eram muito inferiores às pagas aos grandes estúdios de Hollywood -, acabou por matar os cinemas drive-in na sua essência durante os anos setenta e oitenta. O que antes era “cool”, agora era depravado. O que antes era para adolescentes e famílias, agora era para os mais ousados ou mesmo desavergonhados.

Dez carros numa sessão XXX rendiam mais aos operadores do que cinquenta numa sessão “normal”, pelo que a ganância falou mais alto na grande maioria dos milhares de cinemas de estrada que existiam. Juntemos a isto o desenvolvimento da televisão e o aparecimento dos primeiros multiplex cinematográficos, e a queda de um fenómeno americano era mais do que certa. No final dos anos oitenta, já eram menos de mil os drive-ins em funcionamento, sendo que muitos deles estavam ainda ameaçados por questões de desenvolvimento urbanístico das respectivas cidades, cujos principais players viam edifícios de milhões onde na altura existiam parques de estacionamento cinematográficos de tostões.

Com ofertas de milhões sobre terrenos que anos antes tinham custado poucos milhares de dólares, muitos foram os donos dos drive-ins que nem sequer hesitaram – ou não estivesse ainda por cima o negócio nas ruas da amargura. Durante os anos noventa aguentaram-se vivos cerca de setecentos recintos, muitos deles com capacidade para poucos carros, em pequenas terriolas do interior dos Estados Unidos. Outros, maiores, realizaram investimentos que permitiram melhorar as suas condições, a vários níveis, acalmando e contrariando uma tempestade que ameaçava não deixar quaisquer sobreviventes, mesmo funcionando muitos deles numa dinâmica de gerar pouco prejuízo e não algum lucro. Entre eles, aquele que foi e é ainda hoje considerado o melhor drive-in do EUA: o Capri Drive-In em Coldwater, aberto desde 1964.

Mas tanto este Capri como todos os que se aguentaram a soro durante décadas, têm hoje mais do que nunca o seu futuro em risco. A eliminação das películas de 35mm em detrimento dos conteúdos digitais pode marcar o fim definitivo de um mito. O upgrade para a projecção digital custa cerca de 70 mil dólares por unidade, custo que, dada a actual crise financeira mundial e as margens de lucro finíssimas dos operadores drive-in deixam poucas ou nenhumas alternativas. O tempo assim dirá. Quanto ao nosso herói, Richard Milton Hollingshead Jr., faleceu em 1975, vítima de um cancro. O Homem que nos colocou a ver filmes com estrelas, debaixo de um céu cheio delas. O idiota que criou um fenómeno e patenteou a ideia errada.

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